aleijadinho – As várias visões de um artista em eterna construção

Por Alice da Palma e Leonardo Antan

Quem teria sido o artista que talhou em pedra-sabão os profetas bíblicos, os passos de Cristo e uma vasta obra de inspiração cristã? 

Assim como com várias figuras históricas importantes, lendas e mitos cercam a existência de Aleijadinho na historiografia da Arte Brasileira. É atual o debate que envolve pesquisadores de diversas áreas que discutem a construção de um grande artista nacional do período colonial.
Na lendária Minas Gerais, como contam os livros didáticos, nasce Antônio Francisco Lisboa na década de 1730, mais provavelmente em 1738. Filho bastardo de mãe escravizada e pai português, cresce em Vila Rica na casa de sua madrasta e seu pai, o arquiteto Manuel Francisco Lisboa, e, ao que tudo indica, foi com ele que Aleijadinho aprende as primeiras noções de arquitetura, desenho e escultura. Por ser pardo, encontra dificuldades no início de sua carreira para ser valorizado, reconhecimento que só vem no início dos anos 1770. É diagnosticado, em 1777, com uma doença grave que deforma as extremidades de seu corpo, principalmente suas mãos. Ainda assim, ele permanece trabalhando, com a ajuda de auxiliares. Passa, então, a ser chamado de Aleijadinho, no início dos anos 1790, em decorrência dessa doença.

Se das Minas Gerais jorraram o ouro que manteve a coroa portuguesa ainda mais poderosa e criou uma sociedade rica e abastada nas cidades brasileiras, o artista que hoje é conhecido com Aleijadinho foi o responsável por uma série de obras que nos mostram hoje a arte e a cultura daquele período. Na forte influência da Igreja Católica e do seu período colonial, artistas negros e mestiços reinterpretavam aqui os saberes artísticos importados de heranças múltiplas.

Teria sido Aleijadinho apenas um? Ou uma série de artífices que produziram sobre tendências parecidas? Fato é que das igrejas na atual Ouro Preto e em São João Del Rei, até a obra-prima em Congonhas, há um traço reconhecível dentro da História da Arte brasileira ao empregar uma assinatura nas obras de fortes contrastes, curvas sinuosas, os cabelos encaracolados e os olhos levemente puxados. A inspiração para a construção da visualidade que marca a ideia de um “estilo” é incerta, mas estudos recentes apontam forte semelhança entre os Profetas de Congonhas com gravuras do artista italiano Baccio Baldini – importante gravador italiano cuja história pouco se sabe. Podemos perceber que as vestimentas d’Os profetas possuem estilo oriental, com turbantes e calçados característicos. “Os traços do rosto são bem marcados, com nariz grande e olhos oblíquos”. Já Mariano Carneiro da Cunha (1926-1980) considera que Aleijadinho “serviu-se fartamente de convenções formais africanas”. Entretanto, essa consideração ainda carece de maiores investigações.  

Nesse sarapatel de informações e análises, a que interessava os artistas Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues contarem a história de Aleijadinho em um desfile de escola de samba?

Mais do que os aspectos formais da vida do escultor, é importante pensar a maneira como sua imagem foi construída a partir da segunda metade do século XIX. Nesse contexto, a atuação de Rodrigo José Ferreira Bretas, sócio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, foi fundamental no espírito romântico que ajudou a moldar um artista “em degeneração” que fazia obras de raras belezas, espécie de Quasimodo à brasileira. Bretas, professor de retórica, foi hábil em montar uma biografia que move o leitor em direção à dor, ao sublime, da vida, deformada e finita, em confronto com a arte bela e infinda, operando por disjunções, quanto ao ethos, na composição do personagem Aleijadinho.

Décadas depois, na busca pela construção de uma identidade brasileira moderna, o movimento modernista afirmaria o barroco como vital na formação artística genuinamente brasileira. Nesse sentido, Aleijadinho foi transformado no maior nome da arte brasileira até então, reunindo em sua figura um passado simbólico e histórico importante. O texto de Mário de Andrade sobre o artista, intitulado O Aleijadinho e publicado originalmente em 1928, seria um dos marcos fundadores dessa valorização do artista mineiro. Aqui, Mário constrói um  discurso de um artista “mulato” como símbolo artístico positivo da democracia racial e seus mitos. 

Paralelo à criação desse artista, o imaginário das cidades mineiras históricas vinha sendo construído fortemente na cultura brasileira no período anterior à década de 1960. Tanto pela valorização desses lugares no contexto de criação da identidade nacional, como pela criação do IPHAN e do tombamento histórico dessas cidades. Em certa medida, elas eram símbolos do “autêntico” Brasil contra a modernização industrial que tinha como símbolo a construção de Brasília. Assim, o imaginário mineiro torna-se uma referência cara à constituição da identidade e tradição brasileiras.

Se a vida é feita de ficções, Aleijadinho é dos mais bonitos e importantes personagens na História Brasil. Sua formulação entre o romantismo e modernismo dá profundidade a uma trajetória instigante frente a um conjunto de criações visuais do real valor histórico e estético. Não mera cópia ou imposição colonizadora, Aleijadinho é prova de que a arte se faz nas brechas, nas reinvenções. Sua vida a inspirar o corpo afro-diaspórico e coletivo de uma escola de samba é encontro de múltiplas potências e saberes ancestrais, narrativas que se fazem fundamentais sempre.