Salgueiro 1960 – Quilombo dos Palmares

Por João Vitor Silveira

Antônio Gonzaga, Quilombo dos Palmares, 2020, ilustração digital.

O ano era 1960. Talvez, à época, ainda não se pensasse em criar uma Revolução Salgueirense como chamamos hoje, mas com certeza já havia a noção de que aquilo que a vermelha e branca do Morro do Salgueiro estava fazendo era de certa forma diferente. A frase do presidente Nelson de Andrade traduz muito do sentimento por trás da escola: “Nem melhor, nem pior, apenas uma escola diferente”. Não à toa essa mesma frase se tornaria um lema para a agremiação e seus componentes. E cá estamos, comemorando o aniversário desse desfile e de toda a bagagem cultural que ele traz consigo para o Carnaval carioca.

Mas, para além de ser uma escola diferente, havia um desejo profundo naquela comunidade – o que também já havia sido conteúdo de algumas declarações por parte de Nelson de Andrade -, de romper a barreira do quase para, finalmente, hastear o título de campeã no Morro do Salgueiro. A Academia do Samba, até o desfile de 1960, havia visto sempre o sonho do campeonato escapar por pouco, tendo ficado em terceiro lugar no desfile de 1954 e colecionado quartas posições de 1955 a 1958. No Carnaval anterior, em 1959, o gosto havia ficado ainda mais amargo, com o vice-campeonato de Debret à moda carnavalesca de Marie Louise e Dirceu Nery.

O que mudava para o enredo que abriria a década de 1960? Haviam dois prismas para se pensar as transformações que ocorreriam no Salgueiro que propiciaram as mudanças necessárias para alcançar o título tão desejado. Primeiramente, a quebra de paradigma na festa popular na escolha do enredo. Trazer o “Quilombo dos Palmares” era trocar a lente pela qual se observa o Carnaval, com outros corpos como protagonistas e personagens principais da festa na sua discursividade. Era deixar de adotar a visão de uma figura branca europeia sobre o Brasil e entender o Salgueiro como um templo negro, passando pelo olhar daqueles que, de fato, construíram o país.

O passo dado pelo Salgueiro foi essencial para dar um novo rumo para a folia carioca. Para guiar esse projeto, chegaram as mentes geniais de Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues à equipe de Carnaval do Salgueiro. E é impossível pensar no enredo de Quilombo dos Palmares do Salgueiro sem pensar no trabalho artístico desenvolvido no projeto. As soluções encontradas para a construção deste desfile estão presentes nas obras e nas influências prévias que ambos os artistas carregavam.

O enredo diferente, aliado à construção geral da escola no sentido de alcançar um outro patamar nos desfiles recentes, fez com que os ensaios do Acadêmicos do Salgueiro se tornassem uma sensação nos meses que antecediam o Carnaval. Como expunham os jornais da época, caravanas se formavam vindo da Zona Sul da cidade do Rio para poder visitar a Academia. Era inegável, é claro, a influência do vice-campeonato de 1959 naquela onda de visitas. Esse fator, aliado à presença dos famosos passistas da agremiação e de sua boa bateria, fez com que a escola se tornasse um ponto de referência para aqueles que rodavam a cidade para assistir aos ensaios.

Quando chegou fevereiro de 1960, o Salgueiro estava preparado para iniciar a noite dos desfiles daquele ano, mas não sem encontrar empecilhos naquela jornada. O primeiro deles foi a chuva torrencial que caía na noite de sua apresentação, castigando os componentes, as fantasias, a pista e o público que lotava a Avenida Rio Branco. Público esse que teve que lidar com muito mais do que apenas a chuva que caía naquela noite de domingo: a repressão policial dominou o início do festejo, mostrando as garras ao público que invadia a área do desfile. Com a luta pelo espaço na Rio Branco lotada, a única ferramenta encontrada para controlar a multidão fora a violência.

Mesmo após uma hora de atraso e com toda a expectativa para que o cortejo, enfim, começasse, ainda houve tempo para que um grupo de fiscais do Juizado de Menores invadisse a pista, removendo os menores sem autorização do desfile. Quanto mais violenta era a força policial, mais forte e mais alto os ritmistas da Academia tocavam seus tambores. E foi Eneida de Morais, em sua coluna para o jornal Última Hora, que declarou que o espírito guerreiro de Palmares foi incorporado no desfile, frente à opressão policial demonstrada.

Quando o Salgueiro pôde, enfim, começar seu desfile, a primeira coisa a se testemunhar foi um homem negro e alto, cuja fantasia remetia de alguma forma a características tribais, que carregava consigo um estandarte com as inscrições “Acadêmicos do Salgueiro apresenta: Palmares”. Se dava ali o início da trajetória do cortejo vermelho e branco, que passaria por cinco quadros para contar a história do Quilombo: o cativeiro, a luta, a formação dos quilombos, Palmares – o Reinado de Nzambi e Nação Livre.

Foto do desfile “Quilombo dos Palmares”, Salgueiro 1960.

Conforme o samba composto por Noel Rosa de Oliveira e Anescar Rodrigues se espalhava pelos ouvidos do público, narrando a trajetória daquele povo que iria se aquilombar sob a liderança de Zumbi, as pessoas começaram a se contagiar com o desfile, que começava com o setor falando do claustro, trazendo uma representação da escravidão. Nele, primeiramente surgiram alas com cangas e correntes simples para depois dar prosseguimento ao cortejo com grupos que representavam as cinco nações africanas classificadas por Edison Carneiro. À frente de cada ala, um destaque vestido como rei, carregando estandartes negros, representava cada povo. Um detalhe que chamou atenção foram os grandes escudos com os emblemas dos reis dessas cinco nações rebeldes, confeccionados por Nilton Sá.

O quadro que representava a luta se encerrava com a simulação de uma batalha entre duas alas, uma sendo constituída por soldados portugueses e a outra por guerreiros africanos. O quadro seguinte, que retratava a formação do Quilombo, começou com uma ala de baianas, que carregavam bandeiras vermelhas simbolizando a revolução. Compondo aquele quadro, grupos representando diversas nações quilombolas, tendo também a presença de negros com fraques e cartolas, em posse de livros com a inscrição “Doutores da Liberdade”, fazendo alusão aos intelectuais que lutaram contra a escravidão.

As baianas do Acadêmicos do Salgueiro com bandeiras brancos, 1960.

Se encaminhando para o final do desfile vermelho e branco, o penúltimo quadro da escola tinha como objetivo representar o reinado de Zumbi à frente do Quilombo dos Palmares. Em consonância com o samba-enredo da agremiação, a representação visual no desfile também contou com um tom quase monárquico, com um grande palácio quadrado. Ainda construindo aquele bloco, uma corte de Maracatu se apresentou no espaço cênico da Rio Branco, contando com dois negros vestidos como nobres ao centro, em torno da Dama de Calunga representada por Mercedes Baptista com seu grupo de bailarinos.

Ainda compondo aquela cena, um pálio era carregado por componentes, delimitando o espaço de destaque do Carnaval, trazendo apuro estético para aquele cenário, que era também rodeado por lanterneiros. À época, era costumeira a utilização desse recurso – componentes bem trajados que carregavam lanternas para ajudar a iluminar o espaço de apresentação. Esse grupo se comunicava de forma constante com uma pequena alegoria que representava diversas manifestações folclóricas, contando inclusive com doze atabaques e tambores, como por exemplo o rum, o rumpi, o lê, o tambor de mina e de crioula.

Foto da alegoria dos Tambores, Quilombo dos Palmares, Salgueiro 1960.

Chegando ao fim da apresentação, o último dos setores preparados pela escola para aquele desfile representava a Nação Livre. Numa visão própria daquele tempo, o ideal de liberdade estava atrelado a uma visão de ilustração, de forma que a representação se deu através de damas, nobres e aristocratas. Seguindo esses grupos, havia uma segunda ala de baianas, só que dessa vez trazendo consigo bandeiras brancas, simbolizando a paz. Apesar dos prejuízos causados pela chuva à exibição salgueirense, ao término do desfile, o público aplaudiu de forma empolgada o que haviam testemunhado.

Mas a reverência não se daria exclusivamente pelo público presente. No balanço sobre a noite dos desfiles publicada no jornal “O Globo”, rasgou-se elogios à apresentação vermelha e branca. Sob o título de “Acadêmicos Deslumbraram”, a matéria aponta a provável nota máxima da escola no quesito enredo, não só pelo tema inédito, mas também pelo seu tratamento impecável na Avenida. Ressaltou-se a originalidade das coreografias apresentadas, o bom desempenho da bateria do Salgueiro, o belo samba que empolgou as arquibancadas e também as alegorias e a riqueza da escola.

A expectativa era a de que, mesmo sendo castigada pela forte chuva ao longo de sua apresentação, que deixou obstáculos a serem superados na pista, era grande. O termômetro do público, inabalado pelo aguaceiro e aquecido pelos tamborins e surdos da Academia, e a ótima impressão deixada na imprensa da época, confirmaram o fato de que o Salgueiro abriu a noite de desfiles de 1960 defendendo a sua posição como postulante ao título do Carnaval naquele ano, com uma apresentação arrebatadora e histórica.

Mas, após a apuração, uma grande confusão envolvendo o julgamento aconteceu. O processo após aquele Carnaval marcava uma das primeiras viradas de mesa das escolas de samba. Naquele ano, em meio ao processo de crescimento dos desfiles, seriam utilizados os critérios de “cronometragem”, demarcando os tempos mínimo e máximo para cada apresentação. Na ocasião, as notas da comissão julgadora deram o primeiro lugar à Portela, seguida pela Mangueira. Porém, ambas perderiam pontos em cronometragem, o que daria o título ao Salgueiro. Uma briga generalizada, iniciada pelo contraventor Natal da Portela, ocorreu no local da apuração, suspendendo a abertura dos envelopes. Depois do impasse, a Prefeitura do Rio de Janeiro assumiu a responsabilidade pelo atraso, alegando má organização do local dos desfiles, mantendo então o título para a Portela.

Dado o imbróglio, o presidente do Salgueiro tentou reverter a situação. O entrave foi resolvido pelo prefeito do Rio de Janeiro, Negrão de Lima, com um “acordo de cavalheiros” que fez com que as cinco primeiras agremiações dividissem o campeonato, mesmo havendo discrepância na pontuação final entre elas. Como se pode imaginar, apesar do pacto, o campeonato compartilhado não saciou o desejo de títulos da vermelha e branca, deixando um gosto amargo na boca.