Salgueiro 1959 – Viagem Pitoresca Através do Brasil (Debret)

Por Marcelo Pires

Viagem pitoresca através do Brasil – Debret, Thiago Santos, 2020.

Em fevereiro de 2001 a Tate Modern, em Londres, mostrou na exposição Century City – Art and Culture in the Modern Metropolis – as cidades que marcaram a criatividade durante o século anterior. Paris, por exemplo, foi escolhida para representar o período de 1905 a 1915, no qual quase todos os “ismos” da arte moderna foram criados. Nova York foi a representante dos anos 1969 a 1974. E entre as grandes cidades do mundo, o Rio de Janeiro foi a escolhida para o período entre 1950 e 1964. Essa escolha não foi um favor a um país periférico e sim o reconhecimento de uma cidade que em um curto espaço de tempo criou a Bossa Nova, a Arte Neoconcreta, o Cinema Novo, a revolução arquitetônica… Joaquim Ferreira dos Santos sintetiza bem esse período em seu livro, com título autoexplicativo, Feliz 1958 – O ono que nunca devia terminar. Você deve estar se perguntando o que isso tem a ver com o desfile do Salgueiro de 1959. A resposta: TUDO.

O Salgueiro era uma escola nova, fundada em março de 1953, mas já considerada uma das quatro maiores. A falta de um título, porém, incomodava seus integrantes. E ainda que não fosse a principal atração do carnaval carioca, o desfile das escolas de samba ia conquistando cada vez mais admiradores em meio a esse processo de modernização do Rio de janeiro. Logo a busca por algo novo, que garantisse um título e desse uma identidade “salgueirense”, tornou-se fundamental.

Nelson Andrade, esse nome pouco lembrado hoje no carnaval, talvez tenha sido o maior responsável por esse aparelhamento das escolas, com o movimento de renovação da cultura carioca. Ele era um comerciante tijucano que sempre foi apaixonado por samba e, como frequentador das rodas do morro do Salgueiro, começou a colaborar primeiro financeiramente e depois administrativamente com a escola. Como ex-estudante do Colégio São Bento, carregava uma bagagem cultural que veio somar no desenvolvimento de ideias e enredos. É sabido que Nelson já se envolvia criativamente nos enredos apresentados, sendo o responsável pelo seminal Navio Negreiro, de 1957. Mas é no anterior, 1956, que ele assume a presidência do Salgueiro, acumulando o cargo que hoje seria de diretor de carnaval, e acelera o processo de modernização.

Mesmo se apresentando bem e tirando bons resultados, a sede de vitória salgueirense era grande. Foi neste momento que Nelson Andrade resolveu trocar o Artífice da Casa da Moeda, Hidelbrando Moura, então responsável pelo visual da escola tijucana, para chamar um casal de artistas que fariam história. O carnaval é repleto de mitos e um deles é que o diretor chamou o casal Dirceu Nery e Marie Louise após ser informado que uma prima de Iracy, importante integrante e mulher de Caxiné, trabalhava na casa de um casal “excêntrico” que possuía objetos cenográficos em seu apartamento. O caminho pode ter sido esse, mas dificilmente Nelson não conhecia o trabalho do casal. Como já falamos, ele era um homem da boemia do Rio e é certo que frequentava o Vermelhinho, famoso bar de intelectuais que ficava em frente à sede da Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

Dirceu Nery já era bastante conhecido no meio artístico. Cenógrafo do Teatro Folclórico Brasileiro, do Brasiliana e de diversas peças de sucesso, seu nome foi bastante divulgado na imprensa – principalmente no Correio da Manhã, o mais importante jornal da época – quando ele foi um dos curadores da famosa exposição de arte brasileira no Museu de Neuchatel, na Suíça. Lá conheceu Mary Louise, sua esposa, que veio para o Brasil em 1957 e logo se tornou ativa profissionalmente. Muito provavelmente, Nelson de Andrade, quem tinha passado a presidência do Salgueiro para Manoel Carpinteiro com o intuito de se dedicar exclusivamente ao desfile, tenha chamado o casal com a certeza de sua qualidade.

Com esse espírito de renovação, foi escolhido o enredo sobre Debret, artista francês que chegou com a missão artística em 1816. Considerado um artista da Revolução Francesa, ao chegar no Brasil, Debret se choca com as condições em que a população vivia. Mesmo sendo contratado para o ensino de pintura histórica e construção de decorações para eventos reais, ele passa a trabalhar com aquarela para fazer seu famoso livro de gravuras Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, em que retrata o dia a dia do Rio de Janeiro. Essa representação – um pouco imprecisa – sobre o cotidiano e a sociedade carioca se tornaria a base para a apresentação salgueirense.

Com o tema desenvolvido por Nelson Andrade, figurinos desenhados por Marie Louise e adereços produzidos por Dirceu, com a participação de Hidelbrando, a escola foi construindo um desfile que seria revolucionário. Foi decidido desde o início que o Salgueiro não apresentaria carros alegóricos, mas sim alegorias de mão que iriam compor as cenas retratadas nas obras de Debret. Os figurinos também seriam bem mais sofisticados, no sentido da construção de reprodução de época, pois buscariam uma reprodução mais teatral, parecendo-se menos com os visuais inspirados na pompa das peças de revista. Marie Louise com todo seu conhecimento técnico passava para as costureiras da escola os detalhes mais complicados das roupas de época. Já naquele carnaval, algumas alas estranharam não sair com as roupas “de realeza de época”, mostrando a potência daquele trabalho.

Já na concentração, o Salgueiro impressionava. Para dar um toque ainda mais revolucionário, Andrade, que sempre entendeu carnaval como uma manifestação popular, decidiu que iriam desfilar sem as cordas que cercavam as escolas. Aquele carnaval de 1959, entretanto, foi marcado por uma forte desorganização. A tomada do público na pista da Avenida Rio Branco impediu o início das apresentações no horário previsto. Pela ordem, a Unidos de Bangu abriria os cortejos, mas além de confusão na pista, a agremiação ainda quebrou o eixo de uma das alegorias. Nenhuma outra escola queria ficar para si a tarefa de abrir os cortejos, exceto a vermelho e branco da Tijuca, chamando para si a responsabilidade. Já havia passado das 22 horas e 45 minutos, quando a Rio Branco ouviu os primeiros acordes do samba de Djalma Sabiá e Duduca.

Dois grandes negros de um metro e noventa encabeçavam o corpo de componentes. Trajados como escravizados, traziam o estandarte com o nome do enredo “Viagem pitoresca através do Brasil”. Apostando em um visual revolucionário para a época, o Salgueiro veio extremamente leve, tanto nos trajes como pela ausência de carros alegóricos, criando um desfile compacto e lindo. A sofisticação dos figurinos, mesmo representando figuras populares, foi um destaque à parte. Cestas de vime, gaiolas, flores adornando as roupas dos escravos de ganho, tudo era uma novidade. Cestarias, vendedores de frutas e galinhas, além da corte brasileira surgiram em encarnado e branco. Os grandes e cenográficos adereços de mão serviram para ladear a apresentação, substituindo as criticadas alegorias de então, como na ala de damas trazendo reproduções de pinturas. Grandes lampiões a gás carregados pelos desfilantes iluminavam a Avenida e formavam um cortejo, mais do que nunca, teatralizado.

O desfile de 1959 seria um marco no desejo de teatralização dos desfiles das escolas de samba. A ideia de reproduzir as gravuras de Debret na Avenida mostraria o desejo de transformação na forma de apresentação que as escolas vinham utilizando até ali.

O carnaval de 1959 é tão importante que hoje lendo o nome dos jurados vemos como essa festa estava tomando importância. Estavam lá Edson Carneiro, Eneida, Belá Paes Leme, Lúcio Rangel, Brasil Easton e o grandioso Fernando Pamplona. Mesmo ficando em segundo lugar – por apenas um ponto atrás da campeoníssima Portela –, o Salgueiro foi muito elogiado e deu o que falar, rendendo assunto nos meios especializados. Eneida escreveu uma crônica inesquecível e Edson Carneiro citou o desfile como um dos momentos mais lindos entre as manifestações culturais que ele já vira. Quanto a Fernando Pamplona, cenógrafo do Theatro Municipal e grande artista plástico, sua nota em “Escultura e Riqueza” (20 pontos contra 19 da Portela) chamou tanta atenção que Nelson Andrade foi conversar pessoalmente para agradecer. E, como já sabemos, daí saiu um encontro que mudaria a história do carnaval carioca para sempre.